Conheci a José Donato, mas conhecido como Zé Dom, um homem já pela sua terceira década, na verdade já estava nos finalíssimos de sua terceira década. Morava em um apartamento simples, que todas as segundas-feiras ecoava o som frio e metálico de um emaranhado transitacional, cuberto de luzes, motores e fumaça, como se o som já não fosse suficiente. No meio do caos, Zé saia de casa sempre a pé, com um velho sapato de couro já marcado, indicando o uso intenso. Complementava com uma calça jeans em estado razoável, um cinto para combinar com o sapato, uma blusa social desabotoada deixando à mostra seu pequeno cordão de ouro, com um pingente de cruz, regalado pela sua avó já falecida. Nesse dia ocasionalmente, Seu Dom vestia também uma jaqueta de couro, fazendo juz ao sapato, estando tão desgastada como o tal. João chegava ao trabalho religiosamente às nove da manhã, e voltava para casa somente após as seis da tarde; um emprego de carga horária leviana, ainda mais com as corriqueiras saidas de Zé até o térreo do prédio, para poder fumar seu cigarro e ter um tempo para si mesmo. Dom Dom era um fumante de longa data. Tinha começado a fumar aos 17, majoritáriamente por influência das amizades. Lembra-se que os cigarros, de tanto fumados, já serviam como um relógio, como uma medida de tempo, estabelecendo qualquer saida para a rua após um cigarro, ou dois. Como se dissessemos:
- "AH, depois desse cigarro a gente vai."- Ou até;
- "Deixa só eu acabar este daqui e a gente sai."
Mas esse seu vício nos dias de hoje já vira a mostrar algumas evidências de um verdadeiro fumante. Seus dentes por mais que escovados conferiam uma aparência cinzenta, e seus dedos amarelados, causa do intensivo banho de nicotina esparramado a cada vez que acendia-se o isqueiro.
Regressava à casa, onde fumava um pouco mais, e se sentava em uma antiga poltrona da década de oitenta. Ligava a televisão e, em um perfeito timing buscava sua cerveja gelada na cozinha enquanto a televisão começava a ligar. Sentado de novo, degustava sua cerveja como a última que tomara, mas não dava muita importância à televisão, já que estava passando um bando de merda mesmo, segundo ele.
De repente, Zé Dom sente uma forte fisgada no coração, e luta para se levantar, mais não consegue, se joga na poltrona e perde todas suas forças deixando com que a garrafa de vidro escuro caisse no chão, derramando cerveja, já que a sua morte não tinha derramado sangue.
Foi uma morte por acaso, que só vieram a descubrir uns dois días depois. Zé morreu ao som de Originais do Samba, ouvindo sua musica predileta; Falador passa mal, que por coincidência passava o clipe na televisão no momento em que fulminava-se o falecimento. Uma morte um quanto paradoxal. Mas, para falar a verdade, ninguém sabe o momento em que se morre. Nós só temos certeza de uma pequena coisa na vida. Não sabemos o que seremos, o que faremos, como viviremos amanhã, só sabemos que pode ser um dia qualquer, em um lugar qualquer, ao som de qualquer coisa que vamos morrer. Que no caso de Zé Dom foi uma segunda-feira qualquer.
Não desista disso aqui.
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